João Botelho é um dos principais realizadores portugueses. Estreou, em novembro de 2025, o filme As Meninas Exemplares, um divertimento e uma homenagem à artista Paula Rego. O seu trabalho enquanto cineasta começa em 1977 e soma, hoje, prémios e nomeações nacionais e internacionais, numa obra com 35 produções cinematográficas, que compreende o filme e o documentário.
Viu o edifício Interpress mudar, conheceu-o ainda quando o Teatro do Bairro era lugar de impressão do Diário Popular e de muitos outros jornais. Qual a sua ligação a este edifício?
Era engenheiro mecânico, no Porto, mas o 25 de Abril mudou-me a vida. No 1º de Maio já estava em Lisboa. Vim para a Escola de Cinema aqui ao lado. Pintar. Tinha 24 anos, os meus colegas 20 e tal, mas foi uma grande aprendizagem, a Escola de Cinema. Tive bons professores, fizemos bons seminários e também trabalhei aqui no edifício Interpress. Vivia de design. Fazia muitas capas. Fiz capas de livros para a Gulbenkian e para a Cinemateca, e trabalhei aqui em cima [1].
Aqui trabalhei para um jornal de esquerda, chamado Gazeta da Semana e depois a Gazeta do Mês. Escrevia crítica de cinema, fazia paginação, quando isto era uma oficina de imprensa, com a máquina de imprimir onde é hoje o Teatro do Bairro. A montagem, onde eu estava, era nos andares de cima. Era completamente diferente. Está muito melhor agora. Era uma fábrica de jornais de imprensa, faziam a Bola, o Recorde, sim, a Capital, o Sábado.
Eu esperava muitas vezes pelas 5 da manhã para saírem os primeiros jornais e os ler. Vinha cá muitas vezes, vivia aqui perto. Esta é a minha relação com este edifício.
Na entrevista com o Alexandre Oliveira, que se encontra no site da Interpress, percebemos a relação de trabalho e de confiança, já longa, que tem com a Ar de Filmes. Grande parte da sua obra cinematográfica foi produzida pelo Alexandre Oliveira. Como se iniciou esta relação e que momentos foram marcantes?
O Alexandre já o conheci mais tarde. Fiz muitos filmes antes, fiz uns que produzi eu, outros, uns 8 ou 10 filmes, com o Paulo Branco. Depois houve uma altura em que passei a trabalhar com o Alexandre. O Alexandre já tinha o Teatro do Bairro, estava no início das obras e tinha sido meu director de produção num filme produzido pelo Paulo Branco – A mulher que acreditava ser Presidente dos Estados Unidos. Conheci-o aí. O Alexandre também foi director de produção de dois filmes que fiz para o Cunha Teles – Corte do Norte e o Aqui na Terra, sobre a Agustina Bessa-Luiz e o outro que escrevi eu. A partir daí, tivemos uma boa relação. Não sou um bom produtor, portanto, tive de encontrar um parceiro, que é o Alexandre. Na altura, ele montou uma empresa chamada Ar de Filmes e comecei a trabalhar com ele. Comecei com os documentários, encomendas que recebi lá de cima, porque sou de Trás dos Montes. Sobre Montalegre, sobre o Torga – A Terra antes do Céu. Sobre Miranda fiz Anquanto la lhéngua fur Cantada, fiz um documentário sobre Foz Côa chamado A arte da luz tem 20.000 anos sobre as gravuras. E a partir daí, comecei a trabalhar com ele nos filmes. Nem sei qual é o primeiro, o filme da peça de Almeida Garrett ainda fui eu sozinho que o produzi, o Quem és tu? Com ele fiz o Filme Desassossego, o Pessoa. Fiz o Ano da Morte de Ricardo Reis. Fiz muitos, cerca de 10, e continuo a fazer de vez em quando uns documentários. Fiz recentemente O Jovem Cunhal com o Alexandre. Agora estou a fazer O Velho Salazar. É o próximo. Já o filmei, estou a montar. E fiz As Meninas Exemplares.
Há uma relação de honestidade, de trabalho, e é uma pessoa que é séria. Paga às pessoas, aos técnicos, paga. Os produtores anteriores não faziam isso. Por exemplo, uma coisa que me espantou quando foi o Covid, é que o Alexandre manteve as pessoas do Teatro do Bairro a receber. Isto é uma coisa boa. Nunca se atrasa. E somos uma boa dupla em relação à produção.
Depois, há uma coisa que eu gosto, que aprendi com o Manuel de Oliveira. É que quando não há dinheiro para filmar a carruagem, filma a roda, mas filma bem a roda. Trabalhei durante muito tempo com ele, aprendi muito, a ideia de ponto de vista, de fazer como quero. O Alexandre nunca interferiu no meu modo de filmar. Respeita as minhas ideias, também é mais novo, tem de respeitar! Temos uma boa relação. Neste último filme que fiz com o Alexandre, por exemplo, ele aceitou a ideia de sair das salas de cinema. Estou farto de salas de cinema. Sabe porquê? As gerações mais novas vão ao cinema, mas comem, bebem, falam. Veem no iPhone como é que acaba o filme. Já não olham para o ecrã, as crianças estão completamente diferentes, não têm capacidade de atenção.
Então, realizou um périplo pelos cineteatros em Portugal? Quem é que vai aos cineteatros?
Decidimos, com As Meninas Exemplares fazer uma coisa que eu tinha feito no Filme do Desassossego que é ir aos cineteatros. Comecei em Bragança, off off Broadway, depois vim para Lisboa. Apresentámos o filme com a exposição de desenhos da Paula Rego. Dá uma trabalheira, mas vale a pena, tem espectadores. Basta que dos 100 que estão na sala, ganhe seis para as artes fico feliz. Dou uma aula sobre cinema, porque eles acham que o cinema começou há um ou dois anos e o cinema tem cento e tal anos. Há uma história do cinema. Dou a aula de cinema, às crianças e aos adolescentes, liceais ou das escolas técnicas, e, à noite, falo do filme aos pais. Fiz quatro apresentações seguidas em Leiria num dia, depois fui a correr para Vila Real, fiz três, é duro.
O cinema em Portugal não é rentável. Se não houver apoios do Estado, não há cinema, não há música, não há ópera. Se me dão dinheiro para fazer filmes, eu tenho obrigação de fazer serviço público. E, portanto, vou. É outra maneira, é uma relação muito mais próxima. Eles não comem, eu não deixo comer, e se começam a falar alto páro o filme.
Sou do 25 de Abril e, portanto, a liberdade é coisa que não tem preço, mas há um limite. Há um limite que é não incomodar o outro. Estão 100 pessoas, 40 querem ver, 60 não querem, os 60 que vão brincar. Estou a ganhar espectadores, a ganhar pessoas. E as pessoas são todas diferentes, para mim não há público. O público é uma massa anónima, as pessoas, umas reagem de uma maneira, outras de outra. Sobretudo porque o cinema é uma coisa falsa. Porque é. Não é verdadeiro, não é uma arte pura, não é pintura, não é música. Agora, às vezes as artes vão para o cinema.
Mas o cinema faz parte das artes visuais. A pintura também é uma representação do artista sobre a realidade. Porque é que o cinema tem pecado original?
A primeira vez que se viu imagem em movimento, metia-se uma moedinha, foi logo um negócio. Depois vai roubar ao teatro, vai roubar à música, vai roubar à escultura, é uma arte de vampiros. Mas, houve artistas que foram para o cinema. É outra coisa, mas a origem daquilo é um negócio com pecado.
O cinema é falso, filmam o senhor que está lá fora aqui hoje, filmam-no daqui a um mês e ´juntam num 24 abre segundo´ [2], portanto, é um dispositivo. E tem uma gramática que o D.W. Griffith, que era um artista, o primeiro grande artista do cinema, um americano de 1910, que começou a fazer filmes mudos, inventou: os grandes planos. No teatro é um plano geral. Na ópera é um plano geral. Ali começou a haver grandes planos e movimentos de câmara. Inventou o que gosto de chamar de “luzes e sombras e seres humanos aflitos lá dentro”. Os optimistas vão para a luz, os pessimistas para a sombra. Isto é que é o cinema, é uma representação, e tem de se dizer sempre às pessoas que é uma representação.
Não é a mesma coisa da pintura ou da literatura. As pessoas acreditam que aquilo está a acontecer. E não é, já aconteceu. Fui eu que fiz acontecer. É um ponto de vista da pessoa que faz. Por exemplo, num romance, quem o lê pode escolher a cor do vestido que uma pessoa tem ou os amarelos ou os azuis. E ali são os meus. Sou eu que escolho, não é! Cito sempre um exemplo magnífico que é Madame Bovary do Flaubert. A Madame Bovary não existe, é o Flaubert que a escreveu. Mas, conheço quatro obras-primas feitas a partir daí. Uma é do Jean Renoir, uma do Minnelli, até uma de Oliveira com a “Bovarinha” do Douro, da Agustina, que é o Vale Abrão. E são todos diferentes porque o cinema não são as histórias, é o modo de as filmar, um filma de uma maneira, outro filma de outra. O cinema são modos de filmar as histórias. Os filmes são histórias. Cinema não, é o modo de as filmar.
E o cinema português?
Nós temos esta capacidade em Portugal. Porque não temos um grande mercado, quase nenhum, é que somos livres, ou seja, podemos filmar pontos de vista que não têm o ferreto do pecado original, o negócio. Portanto, somos livres nisso, fazemos filmes mais baratos. Este tipo de coisas marcou-nos muito o cinema. Somos uma espécie de netos do Rossellini que filmava milagres com poucos meios.
Houve cinema português bom, e houve cinema francês. Eu sou formado na nouvelle vague, com os Godards e os Truffauts. Sou dessa geração. Dos italianos, do Rossellini, do Fellini, do Visconti. Não sou dos americanos. Apesar dos cineastas que eu mais amo, serem americanos, o Ford, por exemplo, que eu adoro. O cinema começou em França com Georges Méliès, a fantasia, e os irmãos Lumière, a saída da fábrica, o chegar do comboio à Gare de Lyon, mas eram pontos fixos, e depois isso evoluiu para muitos sítios. Os americanos fizeram uma indústria e nós fizemos o chamado cinema nacional, em que a arte é muito marcada. Depois vem o Tubarão do Spielberg e matou-nos a todos. Porque estavam em crise inventaram uma coisa chamada divertimento infanto-juvenil. Um divertimento, percebe.
Na literatura há livros que são de divertimento!
É a mesma coisa, e, portanto, tentamos defender, o sermos mais do pensamento que da acção, do tempo do que da montagem. Nós somos do tempo. Filmar uma árvore, tem tempo, ver um quadro, é preciso tempo.
Nos tempos que correm, brincando com a palavra tempo, há pessoas que estão horas numa fila para ver uma exposição. Depois vão ver a exposição de costas, tiram fotografias de costas para os quadros, mudou tudo. As pessoas deixaram de ler. Porque têm os iPhones deixaram de ler. O Séneca, há 2000 anos, um filósofo romano, dizia para o miúdo, aprendiz de Lucílio nas As Cartas a Lucílio, – ´lê meu filho, a leitura aumenta a inteligência!´. E esta ideia é essa.
Até as artes plásticas estão a mudar, hoje fazem-se grandes exposições super-interativas e até os artistas, alguns, derrapam para lá.
Como dizia o Godard, é preciso terem sucesso. Não querem o progresso das formas, querem o sucesso imediato, querem aparecer nos jornais, querem aparecer na televisão. As grandes obras não se fazem com isso em mente.
Dos filmes que vi seus, o Filme do Desassossego e Um Filme em Forma de Assim, reconhecem-se logo como sendo realizados por si. No seu processo criativo quais os elementos e aspectos de filmagem que lhe interessam? A cor, a dimensão dos corpos?
Há uma coisa que me orgulho. Eu tenho visto filmes que fiz há 40 anos e ainda estão bem. Resistem ao tempo. Ainda ontem vi a Conversa Acabada, e é um bom filme. Os Tempos Difíceis. Um Adeus Português. São filmes que fiz há 40 e tal anos e ainda se olham e dizem, oh, não é mau. Na minha relação com o Alexandre e a que ele tem com o Pires, no teatro, é a de fazer boas obras.
Quando falei com o Alexandre, fiz essa pergunta. Vai buscar bons livros, boa literatura para fazer as peças de teatro.
Na literatura, eles escrevem melhor do que eu. Apesar de ter escrito quatro ou cinco filmes, dos 30 ou mais, a maior parte são adaptações de obras literárias que eu adoro, mas não é uma redução dos livros, é outra coisa. Por exemplo, As Meninas Exemplares, que fiz agora, foi o primeiro livro que li na vida, tinha 6 anos. Tinha três irmãs, mais velhas. Os livros que havia lá em casa eram livros para meninas. A Coleção Cor de Rosa, mais tarde encontrei o Júlio Verne.
O seu novo filme As Meninas Exemplares é inspirado no livro da escritora russa Sophia Rostopchine, A Condessa de Ségur, e na obra da Paula Rego. Como se ligam estas duas referências na produção do filme?
Para fazer o filme tive de escolher muito. Eram 600 páginas, tive de passar para 110, o filme não chega a 1 hora e 25 minutos. E depois gosto daquela ideia de crianças adultas. Pessoas entre os 30 e os 40 fazem de crianças de 5 anos. A regra que eu combinei com os actores, foi de corpos de crianças, atitudes de crianças, mas voz de adultos, porque aquilo é tão perverso que só podem ter sido adultos.
Essa parte das crianças adultas foi buscar porque estava inspirado na Paula Rego.
Não, foi ao mesmo tempo. Por exemplo há desenhos da Paula que ela fez já depois de conversar comigo, há muitos anos. Encontrei-a uma vez em Veneza, eu estava a filmar o Quem és tu? que fiz há 20 anos e ela estava lá. Tinha uma exposição. Encontrámo-nos, fui beber uns copos com ela. A Paula estava impressionada com uma obra que o David Hockney tinha mostrado A Rake’s Progress e disse – Ó João, eu faço-lhe isto para as meninas. Eu dei aquela ideia das crianças adultas. Lembro-me que a protagonista, que neste caso é a Rita Durão, era a Maria Medeiros. Naquela altura até tinha um prospecto e ela ficou entusiasmada com aquilo, e tinha a mesma atitude que eu em relação à obra. Ou seja, só podiam ser crianças adultas. Os desenhos dela também são crianças adultas, mais velhas, mas a boneca é maior que a criança. A Paula ilustrou uma série de livros de criança, não foi só a Condessa de Segur, fez outros. Mas, é a perversão da cabeça da Paula, é portuguesa, como eu. Aquele texto é tão sofisticado e perverso que coincidíamos na atitude. Aquilo é sangue, arrependimento e beijos. E esse tipo de coisa entusiasmou-me no modo de filmar, e isto é dedicado a ela. Tive uma relação curta e, quando me deram o apoio do ICA, ela já não estava cá.
Reparei no filme As Meninas Exemplares, que eu gostei muito, o contraste entre as roupas muito coloridas, e depois as paisagens muito ocres. Há um contraste forte.
Meio ao longe, desfocadas. Pronto, são pinturas atrás e pinturas à frente.
Quadros, são quadros. Mas, acho, porque também vi o filme do Fernando Pessoa, o Filme do Desassossego, que também havia esse contraste.
Eu filmo sempre da mesma maneira. Há sempre um pintor que me marca, se vir os meus últimos pelo menos 20 filmes. Desde o Caravaggio, por causa da luz e sombra, ao Lucian Freud pela exposição dos corpos. Tenho o Gerhard Richter, quando desfoco. O Ritcher, o pintor alemão.
No Filme do Desassossego escolheu o Caravaggio, tinha ambientes escuros. Agora, nas Meninas Exemplares, é colorido. É mesmo isso, é pintura. As personagens sobre aquelas paisagens.
A pintura é um parceiro privilegiado do cinema e dos enquadramentos. E há outra coisa que eu estou a gostar, cada vez mais, que é utilizar a música de uma maneira diegética, ou seja, eu vejo alguém a tocar. Comecei a fazer isso há três ou quatro filmes. Sim, por exemplo, na Peregrinação eu tenho um coro. Os piratas cantam.
É que às tantas até fica uma coisa meio teatro. Parece que estamos numa peça de teatro.
Claro, eu tenho uma inveja enorme do teatro, porque o teatro é logo falso à partida, as pessoas vão ver uma peça, vão ver uma representação. No cinema dá ideia de que aquilo existiu, mesmo os super-heróis, os miúdos julgam que aquilo está a acontecer. Não, é tudo fabricado.
É um privilégio para a literatura portuguesa que haja quem filme os grandes escritores, Fernando Pessoa, Almeida Garret, Agustina Bessa-Luís, O´Neil. Como é que veio até aqui, como começou? É uma admiração pela literatura portuguesa e pelos seus autores, ou é outra coisa?
Nunca fiz um filme autobiográfico sobre os meus problemas. São os problemas do país. O país sempre, sempre Portugal, é o que me interessa, o Portugal bom e o Portugal mau. Portugal! Por exemplo, Um Adeus Português não é um filme só sobre a guerra colonial, é sobre o luto da guerra. Foi feito há 14 anos, 12 anos depois de ter acabado a guerra colonial, e a guerra colonial que está lá é papelão. Era o luto português, o comportamento português.
Fui buscar um casal do Minho, que era com a Isabel de Castro e o Rui Furtado, que vêm visitar a antiga mulher de um miúdo que morreu na guerra. E é sobre esse choque do silêncio. Os portugueses agora já estão todos aos gritos, mas naquela altura não. Eu tive um irmão que era piloto de jacto e que morreu num acidente antes da guerra, nunca se falava disso em casa. Percebe, aquele silêncio e sofria-se para dentro, não é.
Sabe porquê? Eu também fui roubar uma coisa ao Alexandre O´Neil, por isso é que eu depois fiz um filme sobre ele, que é – ´esta dor portuguesa tão mansa, quase vegetal que é o adeus português´, o Um Adeus Português que é um poema de amor sobre a separação do O´Neil da Nora Mitrani.
Eu fui ter com ele, – ´ó Alexandre, preciso desta frase e do Um Adeus Português para um filme´, e ele deu-ma. E fez uma coisa que eu fiquei eternamente grato, escreveu um texto num jornal a dizer que me tinha oferecido. Então, eu depois fiz ´Uma Coisa em Forma de Assim´
Gostei imenso de ver o filme porque eu conheço a poesia dele, mas não sabia nada sobre ele. Conhecemos a obra, mas depois não sabemos muito sobre a vida e de repente com os seus filmes descobrimos a pessoa.
A Maria Antónia Oliveira ajudou-me, fez uma biografia excelente sobre ele. Eu conhecia algumas coisas, mas não conhecia tanto e ela ajudou-me a saber coisas da vida dele. Ele ainda estava com a Teresa Patrícia Gouveia quando o conheci, e eu fui ao funeral ter com a Teresa. Portanto, fiquei com uma ligação, ainda por cima era meu vizinho. Como era de uma geração um bocadinho anterior à minha, um bocadinho mais velho, eu tinha um respeito por ele, não tinha intimidade, mas depois a partir daqui fiquei. Gostei.
É um grande! Era um grande poeta, era um grande escritor de crónicas e de pequenos de ensaios. Era um grande publicista. Fazia tanta coisa. Fez muita coisa – ´Passe um verão desafogado´, – ´Vá de metro, Satanás!´.
E a Agustina, conheceu-a também por fazer o filme?
Ainda falei com ela. Ainda viu o filme, quando estava já muito doente em casa, e escreveu-me um postal muito bonito a dizer – ´finalmente alguém que me entende´. A Corte do Norte é um filme muito bonito. Quando diz que finalmente alguém a entende é por causa da mentalidade, por exemplo, o Manuel de Oliveira, que filmou muito com ela, a partir dos textos dela, tinha um entendimento que os homens são santos e as mulheres são as perversas que os levam para o mal. O Oliveira tinha este tipo de discursos e ela às vezes ficava furiosa. Nos romances dela, as mulheres são fortes e os homens são uns pategos que andam atrás, o que é completamente diferente. Na A Corte do Norte – ´finalmente alguém que entendeu o poder das minhas mulheres´. Escreveu-me isto. Veja, que é muito bonito porque é uma personagem que faz as personagens todas, faz a avó, faz a neta. É o grande romance dela, chamado A Corte do Norte. A Sibila, alguém está a fazê-lo agora.
A Agustina tem uma coisa maravilhosa, é que é uma torrente de escrita. Depois era o marido que fazia as confirmações. Ela tinha gralhas de datas, enganos, e ela nunca os corrigiu. Ela deixava ficar, o texto é que lhe interessava, aquela torrente de palavras e aquele comportamento das pessoas do Norte, que são boas, mas parricidade. As mulheres que cheiram a tabaco, o resto da beata porque estão apaixonadas por um homem. Aquilo é, bem! E a Agustina foi um luxo para mim. Nem era meu o filme. Quem estava o fazer era o José Álvaro de Morais. Mas estava a fazê-lo de um ponto de vista Viscontiniano, era caríssimo. Entretanto, ele morreu e eu dedico-lhe o filme, porque era muito amigo dele, mas fiz de um ponto de vista económico, ou seja, mais barato. Parece que se passa tudo na Madeira, mas só lá fui uma semana. De resto filmei tudo aqui.
É esse mais barato que também dá características mais distintivas ao filme, porque quando entramos na grande produção vamos para a América e não nos interessa, não é? Perde-se a arte.
Eles num cartaz gastam o dinheiro todo que eu gasto num filme.
Então, há mais algumas características que tenha no seu trabalho, que sinta que são suas e que são particularidades da forma como filma.
Eu acho que se conhece, isto é um plano do João.
Isso reconhece-se, eu que sou uma leiga já consigo ver. Mas, como é que do seu lado fala? O que é que chama a isso?
São fontes de inspiração, a pintura é matéria para mim. Como é a música, como é a luz, são elementos de constituição das emoções. Eu também comecei como gráfico. Os primeiros filmes parecem capas. Eu fiz 3000 capas de livros. Eu ganhava mais dinheiro a fazer livros do que no cinema, no cinema não fazia nada. E pronto, fiz muita coisa dessa, fiz muitos catálogos para a Cinemateca. Fiz os cartazes todos dos anos 30, 40 e 50 do ciclo de cinema da Gulbenkian. Ilustrei nove livros de crianças, muitos livros de criança do Manuel António Pina, do Zé Rodrigues Miguéis, o Arroz do Céu, fiz capas de livros, desenhava, portanto, eu venho do desenho.
E também venho de outra coisa, que é engenharia, é por isso que as minhas estruturas se veem. Eu era engenheiro. Eu devia ser arquiteto, mas tinha família no Porto e foi para Coimbra onde não havia arquitetura. Sou como o Bernardim Ribeiro – ´muito novo me levaram de casa dos meus pais´. Menina e Moça.
Cálculo que goste de ler, é um bom leitor?
Sou. Leio há muito tempo.
Mas, quando trabalho num filme, dantes de 4 em 4 anos, agora de 2 em 2, nesses momentos leio as coisas que me interessam para o filme.
E lembro-me de uma altura, em que tive uma crise, e de repente caiu-me o Livro do Desassossego lá da estante. Peguei naquilo e disse assim – ´o meu sofrimento é ridículo ao pé disto´. Salvou-me a depressão. É tanta a depressão, meu Deus! O Eduardo Lourenço dizia uma frase muito boa sobre o Livro do Desassossego, – ´É um labirinto genial sem centro´. Anda à volta, à volta.
Sabe uma coisa, eu tive sorte, eu tenho sorte da vida. Tive o fascismo do Salazar, andei numa escola em que era a única pessoa que tinha sapatos porque era o filho do professor. Os outros andavam na neve com os pés entrapados. Mas tive sorte, porque tive a crise de 69 em que aprendi o coletivo, saí de casa e vim para Lisboa. Estas pequenas catástrofes mudaram-me a vida. No 25 de Abril aprendi um coletivo, não sabia o que era. Ler livros em conjunto, em voz alta, ouvir música. Havia um amigo meu que tinha muitas dioptrias, mas tinha uns ouvidos incríveis. Chegava um disco de Miles David e íamos todos para casa dele ouvir. Isto aos 17, 18 anos. Ia ao festival de jazz. Tive sorte.
Tenho 3 filhos magníficos. Mas o ano melhor da minha vida foi o 25 de Abril. Porque tinha sofrido a época do Salazar, conhecido o que era a dificuldade da vida e de repente há uma alegria enorme, das pessoas, da liberdade. Não há preço daquilo. Agora estamos a correr mal, mas pronto, pode ser que que se endireite. Ttive 50 anos de liberdade, não tem preço, e pude fazer o que queria, mais ou menos, fiz filmes com 50 000 eur e outros de 1 000 000 de euros. Portanto, depende da circunstância. A felicidade é a capacidade de uma pessoa se adaptar às circunstâncias, sem ceder.
Aprendi com outro cineasta, com o grande cineasta alemão, que é o Jean-Marie Straub, alemão-francês e a Danièle Huillet, que me disse assim – ´ó João, nunca digas resistência. Diz dissidência, faz ao lado´. Resistência perde-se porque eles são fortes. Dissidência, ao lado. Não se faz para. Faz-se o melhor que se sabe e depois mostra-se.
Muito bem, e neste momento está a fazer outro filme, o Velho Salazar?
É o Velho Salazar. Já acabou. Estou a montar. Também fiz o Jovem Cunhal. Vai sair na Primavera. Queria ver se passava os dois juntos. O Jovem Cunhal e o Velho Salazar ao mesmo tempo porque há uma frase do Pacheco Pereira, que é meu amigo, que diz – ´são as duas únicas pessoas coerentes do século 20´. Mas o velho Salazar é mau.
É biográfico?
É meio ficção. Dizem que é um documentário. Não é nem documentário nem ficção. É cinema. Neste momento, por exemplo, eu gosto do Cunhal até ele fugir de cá, era uma pessoa cheia de energia e de ideias, e de trabalho, de segurança e nunca recebeu nada. Depois, quando começou a ser Stalinista começou a ser outra coisa. O velho Cunhal não me interessa, e o Salazar é uma ideia de um Portugal mesquinho e de violência. O Salazar para mim são fotografias. No filme, entra a governanta, entra a francesa, entra o calista, entra o enfermeiro, que fazem depoimentos, todos verdadeiros, mas é sobre a mesquinhez portuguesa e o ridículo.
Ele só queria a quarta classe. Por exemplo, há a PIDE, mas não eram muitos. O que ele fez foi transformar as pessoas em informadores, havia 1 000 000 de informadores, por 100 escudos denunciavam o vizinho. Ele não queria mais que a quarta classe, era um funil, a estrada Porto-Lisboa era calcetada. Comia-se carne duas vezes por ano, lá em cima do Norte.
Era uma falta de ambição, não é?
Não, é falta de saber, de educação. Para mim, também não devia haver Ministro da Cultura. Porquê? Onde é que começa a cultura, onde é que acaba. Começa nos filhos do Enrique Carreras, acaba nos pintores, onde é que começa, onde é que acaba. Dizem Ministro das Artes e dos Ofícios, mas a cultura é uma coisa muito extensa, e muito vaga, não se define. O Eduardo Lourenço dizia que – ´a cultura é a normalização da arte´, ou seja, é qualquer coisa que alguém decide que aquilo é cultura. O tempo é que decide o que é cultura, o que é arte. Não é o Ministro, não gosto de Ministros da Cultura.
Gosto da educação. O mal português neste momento é outra vez a educação, pagam muito mal aos professores. E, portanto, já deixaram de ser bons. Pagam mal aos médicos.
O problema é que isso cria um perfil de pessoas pouco empreendedoras, eu vivi fora, em Londres, e o que sinto é que há a questão da dimensão do país, mas há um não ambicionar, um ser maior, um ser maior.
Portugal tem coisas fantásticas, mas falta criação, trabalho, pensamento.
Teve consigo a arca do Fernando Pessoa com os textos lá dentro!
É como o Pessoa. Eu tive sorte, e vou-lhe contar uma história. Eu tive a arca do Pessoa em minha casa. Os textos todos lá dentro.
Quando fiz a Conversa Acabada a arca não estava na posse do Estado, o conteúdo ainda não tinha sido adquirido, estava na posse da sobrinha-neta, que me emprestou a arca. Eu fiz um seguro. Os cadernos de Mário de Sá-Carneiro, em papel pardo, anotados pelo Pessoa, a biblioteca dele. Eu tive o Omar Khayyam na mão, o Rubáiyát, que estava cheio de anotações LD do Pessoa. Não percebia o que era o LD, é o Livro do Desassossego, coisas para o Livro do Desassossego. Estava tudo espalhado na arca, ainda não estava organizado. O Livro do Desassossego só foi publicado dois anos depois de fazer o filme. Ele publicou dois livros em vida. Os poemas ingleses e a Mensagem. Foi sempre posto fora, é um extraterrestre, um génio. Deixou 200 000 páginas por publicar. E o Camões, sempre de postos de lado!
Não os compreendiam, não os compreendiam, não tinham cabeça para ver.
O Pessoa quando ficou conhecido já era um pouco conhecido. Havia as Edições Aguilar no Brasil com poesia e prosa, umas coisinhas em Itália, em França um bocadinho, mas a massificação foi só depois o Livro do Dessossego. O primeiro livro de poemas ingleses, de poemas traduzidos pelo Pessoa tem na capa o meu actor, foi depois da Conversa Acabada. Muito tarde, mais de 40 anos depois da morte é que começou a ser reconhecido.
A Conversa Acabada, que é sobre a correspondência entre o Pessoa e o Mário de Sá-Carneiro. inaugurou em 1980. O Filme do Desassossego tem para aí 10 anos.
Eu tive sorte, por exemplo, quando filmei, estava lá a arca na Tobis e havia um respeito enorme. Parecia uma coisa sagrada. Ninguém falava, ouvia-se a mosca porque aquilo na verdade, era nossa arca da aliança. Só depois é que aquilo foi esbulhado. A biografia do Gaspar Simões não é grande coisa, a do Zenith é que é muito boa, explica tudo e situa, a do Richard Zenith, um americano que se apaixonou – Pessoa. Uma Biografia. A do Gaspar Simões é enorme e tinha tudo sobre ele, mas pronto é assim, na minha vida tive sorte. Fui encontrando coisas boas. E depois escolho.
Fazer coisas boas sobre boas coisas.
É isso.
Mas o Hitchcock fez três filmes maravilhosos com um romance da treta que é Os Trinta e Nove Degraus, fez três filmes do outro mundo a partir de um romance mau, mas há outras pessoas que partem de grandes romances e fazem maus filmes.
O João escolheu estes autores? Foi o João que quis que fossem. A literatura, a guerra, como vai surgindo o desejo de um tema e de um filme?
Porque é a minha pátria. Há muitos autores, mas eram os que estavam mais perto de mim. Gosto da frase – ´A minha pátria é a língua portuguesa´ do Livro do Desassossego do Pessoa, em que ele fala sobre o Padre António Vieira, a grandeza da oralidade do Padre António, diz que chora quando ouve aquele texto e depois diz – ´a minha pátria é língua portuguesa´, mas acaba assim – ´ mas eu não escrevo em português, escrevo eu mesmo´. Sempre, super Camões.
Ele tinha a consciência de uma missão.
Tinha. Ele é um extraterrestre. Ele deixou tudo organizado. Depois mexeram muito, mas tinha tudo para a prosperidade. Morreu aqui ao lado aqui, no hospital. Tinham lá a frase, que já a tiraram, e que é maravilhosa, a última frase que ele escreveu – ´I know not what tomorrow will bring´. Escreveu a lápis antes de morrer.
Pronto, são coisas destas, como é o Camões, como é um O´Neil também um grande escritor, há tantos e as pessoas ligam pouco. Eu lembro-me, eu andei no primeiro ano do liceu, nós líamos as Orações dos Lusíadas.
Nestes últimos tempos, os professores tiraram os Lusíadas, que é muito complicado de ler, é como tirar o dente, em Itália buttare. Portanto, não querem que as pessoas aprendam e saibam. Não é preciso saber tudo o que eles dizem, porque cada um aprende de uma maneira diferente. Uns gostam mais de uma coisa outros gostam mais de outra. Digo sempre aos miúdos, quando dou aulas, devem ter o mínimo de português e de matemática, mas façam coisas, pintem se gostam de pintar, leiam se gostam, se gostam de escrever, escrevam todos os dias. É aquela do Marx, 8 horas de lazer, 8 horas de trabalho e 8 horas de sono. São 24 horas, há muito tempo.
Pois, e até porque estas coisas entusiasmam mais do que o resto, não é?
Não, e estamos a perder pessoas, é isso é que me chateia, eu fiz 150 000 espectadores com Os Maias. Eu sei que as pessoas conheciam Os Maias, ou achavam que conheciam e era obrigatório no secundário. Fiz, não chegou a 5 000 com o O´Neil. Passei-me. Agora vou para os cineteatros. Passaram 10 anos entre os dois filmes, mas o mundo mudou imenso nesse tempo. O Pessoa tem uma frase que eu adoro que é – ´quem inventou o espelho envenenou a alma humana´, ou seja, quando se vê no espelho reconhece-se o seu pensamento ali na sua cara, não é? Mas quem inventou o iPhone envenenou a humanidade toda. Dá jeito para umas coisas, tem coisas fantásticas, mas tem muito lixo. Dão-me encontrões na rua porque estão com o IPhone. Se calhar vão filmar com iPhones. Uma pessoa tem de aproveitar as coisas, mas filma bem!
Há um artista inglês que eu gosto muito, que é o David Hockney. Que faz desenhos lindos e os seus últimos desenhos são feitos numa aplicação do iPad ou do iPhone.
O David Hockney também é o meu favorito.
É. Gosto imenso. Agora realmente para ele não interessa qual é o meio, ele faz e faz sempre bem, independentemente se é com um lápis ou com um iPhone.
Quando apareceu o cinema a cores, os grandes cineastas acharam que acabou o cinema e depois de repente perceberam que se pode fazer grandes filmes a cores. O Kubric inventou uma lente que abria a 0.8, passou a utilizar menos luz nos filmes e as pessoas diziam ´ai que porcaria´ e é possível fazer grandes filmes com isto e é mais barato.
Pronto, então já chega exatamente, vamos ao café.
Obrigado, João, pelo tempo que nos concedeu e por levar o cinema aos cineteatros e a outras pessoas. Ficamos a aguardar o Jovem Cunhal e o Velho Salazar.
Terminamos com um poema de Adília Lopes.
“Dizia-se: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
E as tradutoras da Condessa de Ségur escreviam:
O que não se faz
dia de Santa Maria
faz-se noutro dia
Devo tudo à Condessa de Ségur”
Mais informações sobre João Botelho: Filmin. Ar de Filmes.
Entrevista realizada a 12-11-2025 por Marta Sampaio Soares. Interpress.
Fotografia do João Botelho de Álvaro Cunha.
[1] Entrevista realizada na sala Interpress no r/c.
[2] A referência a “24” (frames por segundo) indica que estamos a falar da manipulação do tempo e do ritmo através da edição, onde a ação é construída e a percepção do espectador é guiada.

